Conta a lenda que Sherazade contou muitas histórias para salvar a própria vida. Ao final, acabou salvando muito mais: a si mesma, várias outras mulheres e o próprio sultão, seu fiel ouvinte de todas as noites. Sherazade foi capaz de mudar tanto, modificar tanta gente, alterar o percurso de tantas vidas. E, então, é fantástico saber que todos os dias, em todo o mundo, também LGBTs salvam vidas pela força da palavra. Salvam vidas falando que o outro pode se assumir, pode viver, pode amar. Salvam vidas afirmando que aquela fase de opressão extrema, em que o outro pensa em se matar, é transitória, que um dia tudo irá melhorar. Seja com um blog, ou uma parada com milhões, milhares, centenas ou com poucas dezenas de pessoas, salvamos vidas ao tornar o mundo possível para quem é tido como diferente. Salvamos vidas quando tornamos a vida possível de ser vivida. Salvamos vidas quando entendemos a rede da qual fazemos parte e ajudamos em sua costura.

Salvamos vidas quando aquela pessoa oprimida por seus pais, por seus familiares, pelos amigos, na escola, na igreja, na vizinhança, pode contar somente com nossa palavra ou apenas com a noção de que não está sozinho, de que somos muitos e que sobrevivemos e somos felizes, que o mundo gira, a história avança e nossos direitos e qualidade de vida correm ao lado deles. Salvamos vidas quando uma das tantas pessoas que pensam em se suicidar, o deixa de fazê-lo por uma palavra, uma imagem, uma multidão nas ruas, alegre, cantando, pulando, dizendo ao mundo que nossa vida vai muito bem – obrigada! -, apesar de tudo e de todos que são contra. Quando mostramos seja através do que for, que não somos invisíveis, que jamais seremos, pois não nos cabem nenhum gueto e nenhuma capa mágica que nos faça desaparecer. Quando mostramos que vivemos, trabalhamos, amamos, trepamos, nos divertimos. Quando mostramos o quanto somos fortes. Cotidianamente fortes e por toda uma vida.

E não desanime, não pense nem por um minuto que sua militância é desimportante, que não tem valor, que pode ter um efeito muito pequeno e um alcance limitado. Qualquer que seja sua atuação lembre-se sempre que ela pode fazer total diferença entre a vida e a morte – física ou social – de alguém. Sempre haverá quem tente reduzir o significado deste ou daquele trabalho, seja ele qual for. E sempre haverá o fantasma do desalento de ver tanta coisa ruim ao redor, mas segure-se você também nas palavras de outros. Afinal, pense bem, podemos nos abater realmente com isso, quando um simples texto ou uma conversa on-line pode salvar uma vida? Enquanto tantos criam um universo impossível para LGBTs viverem plenos e felizes, mesmo apenas através do que falamos e escrevemos, podemos criar todo um outro mundo: um espaço de salvação do que corrói por dentro, do que não deixa respirar lá fora. Portanto, fale, escreva, publique, tenha um blog, um vlog, um site, mergulhe nas redes sociais, divulgue idéias, produza, partilhe informações, converse, chegue até as pessoas, promova ligação entre elas. É fantástico irmos às ruas, protestarmos, fazermos passeatas, paradas, reivindicações públicas, mas nada impede ou diminui a importância da propagação de palavras e idéias e sua força inegável na mudança de mundos e perspectivas de vida. Que nos diga Sherazade!

Ivone Pita no site : Gay1

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